Vamos organizar o que andam falando sobre inteligência artificial e modelos de linguagem?
Chats baseados em LLMs são como aquele amigo cheio de opinião, nem sempre fundamentada, mas que vale a pena ouvir.
É o que Silvio Meira traduz como “imitador algorítmico”.
Quando chats baseados em modelos de linguagem se propõe a fazer uma tarefa objetiva, estruturada e baseada em padrões repetitivos, ele é fantástico.
Mas a criatividade e a visão crítica que ele tem é igual à minha relação com qualquer instrumento musical: se eu bater qualquer coisa aleatoriamente, às vezes sai música.
Nossa relação com modelos de linguagem pode ser analisada a partir de duas dimensões importantes.
A primeira: quanto eles são produtivos? O que ele consegue, efetivamente, fazer? E o que não funciona deixar nas mãos dele?
A segunda: há consciência, supervisão ou algum exercício de pensamento crítico em relação ao seu trabalho?
Vamos montar uma matriz com essas duas dimensões.
Quando os modelos de linguagem não ajudam - ou você não quer, não quer conversa ou não entende se há ou não alguma vantagem, há um cenário de estagnação.
Metaforicamente, é como o dono da videolocadora que mantém seu cadastro de fitas VHS e controle de clientes usando fichas de papel cartão. Sempre funcionou e não precisa mudar.
Há uma unanimidade entre os especialistas: esse é o caminho para a irrelevância.
Esse talvez nem seja o discurso mais comum. Normalmente, As pessoas apenas valorizam habilidades essencialmente humanas, questionando "por que deveria chamar a IA pra ajudar?".
O risco, aqui, é o de não ter argumentos para questionar "por que não?". É a diferença entre "irrelevância" e "ineficácia", ou um aproveitamento limitado.
Esse não é o pior cenários. O apocalipse reside no quadrante onde IA abraça o serviço alucinadamente, enquanto o cérebro permanece adormecido.
É o aluno trapaceiro que entrega o trabalho da escola mas, na hora da apresentação oral, não sabe a qual grupo pertence. Depois de formado, corre o risco de publicar sugestões de leitura para o verão baseadas em uma lista inexistente. Ou conviver com aquele eleitor que esqueceu como dialogar ou pensar - talvez ambos digam que "isso não é importante".
Meu maior medo é o de ficarmos à mercê da maioria - salvo qualquer análise contrária, caminha para esse quadrante. Ou, tão ruim quanto, é o de achar que está no cenário ideal, definido por Ethan Mollick como "cointeligência", isto é, o de integrar a capacidade de armazenar e recuperar informação da IA ao seu pensamento. Quando, na realidade, estamos fazendo coro aos idiotas.
Para chegar à cointeligência, é preciso lembrar que organizar o pensamento e explicá-lo pra alguém é o único caminho. Isso consome tempo e energia.
Ao mesmo tempo, a preocupação não é se a IA vai nos substituir. O que importa é a percepção de quem decide isso.
Em tempo: essa matriz não saiu da minha cabeça de forma espontânea. Também não foi construída pela IA. Há uma disputa histórica por atenção entre tecnófilos e tecnófobos. Em "O que é filosofia da tecnologia", de 2003, Andrew Feenberg sintetiza a diferença que vai continuar levantando questões sobre o que vier.