O que é cibernética

A antropóloga Letícia Cesarino me fez recuperar como a visão cibernética pode ser um caminho para dar sentido à estrutura que apoia as plataformas digitais. Em O Mundo do Avesso1, ela introduz o tema de forma didática.

Ele vem do grego kubernetes, tem a mesma raiz do termo “governo”, e originalmente significa condutor de uma embarcação. A metáfora ilustra um sistema cibernético simples. O conjunto embarcação + piloto se individua enquanto sistema, que tem no mar seu ambiente (formado por outros sistemas – atmosféricos, orgânicos etc.). O piloto tem um propósito: fazer com que a embarcação siga numa certa direção. Para tanto, ele deve perceber corretamente as perturbações do ambiente e, com base nessas informações (input), responder corretamente (output), de modo a manter a linearidade de seu trajeto. Esse ajuste se dá via feedback loops (alças de retroalimentação): causalidades circulares que medeiam a relação, ou adaptação dinâmica, entre o sistema e seu entorno. Num circuito cibernético, outputs retornam ao sistema como inputs e o aprendizado gerado passa a um plano pré-consciente – torna-se a “segunda natureza” do piloto.

Ela se apoia em Gregory Bateson (também antropólogo) para descrever a diferença entre a perspectiva epistemológica dominante (explicação positiva) e a que se apoia em sistemas dinâmicos. É a coexistência de agentes dinâmicos baseados em sistemas, retroalimentação (feedback), informação, interfaces, comando e controle, em contrapartida a uma visão linear.

Visões da tecnologia como causa – ou como não causa, o que dá no mesmo – dos populismos, conspiracionismos e demais fenômenos em tela estão prenhes do viés linear pelo qual a explicação positiva pensa a técnica. Como veremos, o problema não está naquilo que as plataformas e seus peritos dizem que conseguem fazer. Está, antes, naqueles efeitos que eles não conseguem prever nem controlar diretamente. Ainda assim, são efeitos que coemergem a partir da infraestrutura técnica que eles criaram e, dessa forma, carregam vieses de seu design original.

Cibernética e design orquestram a comunicação, priorizando fluxos de informação, dentro de uma "caixa-preta" na qual, muitas vezes, nem os próprios arquitetos conseguem explicar por que um conteúdo é recomendado, gerando uma capacidade dos sistemas em se adaptar ao ser influenciado por essa circulação e se autorregular. Os cibernéticos tomaram da biologia um termo para explicar esse processo: homeostase.

Como as plataformas se apropriam da atenção dos usuários? Estudos sobre cognição e técnica destacam que um fator central à educação da atenção é de ordem temporal: o que o antropólogo André Leroi-Gourhan chamou de ritmo. Com efeito, é o ritmo imposto pelas mídias digitais ao cotidiano dos usuários que propicia os efeitos cognitivos pretendidos. Wendy Hui Kyong Chun descreveu esse ritmo como uma temporalidade de crise permanente, que pontua o cotidiano dos usuários com eventos que demandam sua atenção e reação – nem que seja uma curtida, um encaminhamento, um comentário. A valência do conteúdo interessa menos que o simples fato do engajamento: para os algoritmos, é indiferente se a expressão for de amor ou de ódio.

O que hoje enxergamos como influência (ou engajamento) opera, a partir da visão cibernética, em três níveis: teórico-evolutivo (como ideias moldam tecnologias), arquitetural (como o design molda a informação) e comportamental (como plataformas moldam o sujeito).

Essas mudanças infraestruturais impactam, ainda, o modo de constituição de sujeitos. Quando a temporalidade de crise faz hábito degenerar em adicção, instala-se uma dinâmica involutiva similar à do sistema econômico mais amplo: o sujeito deve estar sempre se atualizando apenas para conseguir continuar no mesmo lugar. Se ele não posta, não chama atenção para si, não gera engajamento, seu perfil “some”. Se o sujeito faz o que sempre fez – não se arrisca –, ele não vai ficar onde já está, e sim regredir. Nos termos de Chun, os sujeitos devem estar o tempo todo “se atualizando para continuar os mesmos”. Esta pode parecer uma forma paradoxal de individuação: o sujeito que se aperfeiçoa deveria evoluir, e não ficar no mesmo lugar ou regredir. Mas ela está em plena sintonia com a dinâmica invertida da infraestrutura técnica que viemos descrevendo.


  1. CESARINO, Letícia. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu, 2022 

Escrever é mediar

Escrever é um dos instrumentos para mediar nossa relação com o mundo.

Enquanto vivemos, acompanhamos o caos da multiplicidade de situações acontecendo simultaneamente. Escrever é dar sentido a eles, organizá-los em uma narrativa coerente.

Nem todo autor consegue. Outros não o fazem intencionalmente. Depende de como o resultado do texto escrito nasce na mente de quem escreve. Jana Viscardi1 nos lembra: escrever é mexer com os recursos que temos em nossa caixa de ferramentas naquele momento.

Os textos perambulam em nossas cabeças, mesmo quando não estamos diante do papel ou da tela do computador. E esse perambular tem, muitas vezes, forma. (Re)pensamos a ordem do que pretendemos escrever, criamos frases curtas e longas, jogando para lá e para cá vírgulas, pontos, pontos de interrogação e exclamação. Inventamos palavras, damos usos inusitados às que já conhecemos.

Ela continua.

De forma mais ou menos consciente, estamos continuamente desbravando esses já conhecidos – mas sempre novos – elementos. Porque cada texto é único, e os recursos podem se revelar e se organizar de formas absolutamente distintas em cada um desses textos, a partir daquilo que somos hoje e do que seremos mais adiante, quando mais histórias, leituras, conhecimentos e experiências cruzarem nossos caminhos, nos permitindo ressignificar aquilo que conhecemos e com que trabalhamos.

Mediar leituras é um processo que envolve apresentar estes rituais, detalhes, processos, visão de mundo do escritor, com o público. Metaforicamente, não é o mesmo que "laçar", como é comum no ambiente plataformado, pautado por "hooks" e engajamento. É uma ponte colaborativa, estimulada por quem "trabalha com a informação e que a apresentam com vigor, clareza e sensibilidade", diz William Zinsser2.

Hoje em dia, não há nenhum aspecto de nossa vida — do passado ou do presente — que não tenha se tornado acessível aos leitores comuns por homens e mulheres que escrevem com grande seriedade e elegância. Somem-se a essa literatura da realidade todas as disciplinas antes vistas como acadêmicas, como a antropologia, a economia e a história social, hoje tratadas por escritores de não ficção e lidas de modo geral por pessoas curiosas.


  1. VISCARDI, Jana. Escrever sem medo. São Paulo: Planeta do Brasil, 2024. 

  2. ZINSSER, William. Como escrever bem: o clássico manual americano de escrita jornalística e de não ficção. São Paulo: Fósforo, 2021. 

O que as redes sociais poderiam ter sido?

Em janeiro de 2004, nascia o Orkut.

Para participar, era necessário convite, como na maçonaria ou no Clubhouse. Foram algumas semanas até a plataforma pegar no Brasil.

Em 2004, o blog era a principal ferramenta de diálogo – de um jeito descentralizado e fragmentado. Com o Orkut, houve uma expectativa para que a conversa evoluísse. Na prática, a maior parte das comunidades se tornaram rótulos de identidade: quem entrava em “Eu odeio acordar cedo” dificilmente articulava formas de driblar o sono e despertar em outros ciclos, por exemplo.

Algo deu errado nesses 20 anos que separam a criação do Orkut e a tal “plataformização” dos conteúdos por meio de algoritmos.

Também havia um certo “temor” diante do volume de brasileiros na rede (“isso aqui vai virar uma baderna igual ao Fotolog”). Bons tempos.