Escrever é um dos instrumentos para mediar nossa relação com o mundo.
Enquanto vivemos, acompanhamos o caos da multiplicidade de situações acontecendo simultaneamente. Escrever é dar sentido a eles, organizá-los em uma narrativa coerente.
Nem todo autor consegue. Outros não o fazem intencionalmente. Depende de como o resultado do texto escrito nasce na mente de quem escreve. Jana Viscardi1 nos lembra: escrever é mexer com os recursos que temos em nossa caixa de ferramentas naquele momento.
Os textos perambulam em nossas cabeças, mesmo quando não estamos diante do papel ou da tela do computador. E esse perambular tem, muitas vezes, forma. (Re)pensamos a ordem do que pretendemos escrever, criamos frases curtas e longas, jogando para lá e para cá vírgulas, pontos, pontos de interrogação e exclamação. Inventamos palavras, damos usos inusitados às que já conhecemos.
Ela continua.
De forma mais ou menos consciente, estamos continuamente desbravando esses já conhecidos – mas sempre novos – elementos. Porque cada texto é único, e os recursos podem se revelar e se organizar de formas absolutamente distintas em cada um desses textos, a partir daquilo que somos hoje e do que seremos mais adiante, quando mais histórias, leituras, conhecimentos e experiências cruzarem nossos caminhos, nos permitindo ressignificar aquilo que conhecemos e com que trabalhamos.
Mediar leituras é um processo que envolve apresentar estes rituais, detalhes, processos, visão de mundo do escritor, com o público. Metaforicamente, não é o mesmo que "laçar", como é comum no ambiente plataformado, pautado por "hooks" e engajamento. É uma ponte colaborativa, estimulada por quem "trabalha com a informação e que a apresentam com vigor, clareza e sensibilidade", diz William Zinsser2.
Hoje em dia, não há nenhum aspecto de nossa vida — do passado ou do presente — que não tenha se tornado acessível aos leitores comuns por homens e mulheres que escrevem com grande seriedade e elegância. Somem-se a essa literatura da realidade todas as disciplinas antes vistas como acadêmicas, como a antropologia, a economia e a história social, hoje tratadas por escritores de não ficção e lidas de modo geral por pessoas curiosas.